blog do Carlos Britto
No dia 27 de Abril de 2012, durante o evento OVERDANÇA, que encerrou o “Aldeia do Vale” Dançar, realizado pelo Sesc na cidade de Petrolina-PE, especificamente durante apresentação do grupo percussivo “As Conchitas”, testemunhamos uma campanha que, para muitos, foi encarada com descontração, mas que, para nós, ressoou como mais uma forma ofensiva de opressão à mulher, mascarada numa “brincadeira”. Durante o evento, um cidadão carregava um cartaz com a frase: “Eu odeio Vadia”, dizendo fazer parte de uma campanha e pedindo que as pessoas posassem para uma foto com o cartaz. Ao ser protestado sobre o significado da tal “intervenção”, o mesmo respondeu questionando: “Quem nunca perdeu o marido ou o namorado para uma periguete? Quem gosta de vadia?”, sem dar respostas muito consistentes.
Após o ocorrido, encontramos o blog (http://www.pontepop.com.br/2012/04/o-overdanca-encerra-o-aldeia-vale.html), no qual a campanha havia sido divulgada, contendo a seguinte descrição: “Vadia é aquela periguete que vive lutando em prol da destruição da felicidade conjugal dos outros, aquela raça de periguete mal vestida (ou menos vestida) e vulgar que odeia ver casais felizes e vai lá destilar seu veneno”.
Nós, do Coletivo Feminista do Vale do São Francisco, repudiamos tal intervenção. Indignadas com a campanha, sentimo-nos provocadas a nos posicionar considerando-a reflexo de uma sociedade patriarcal e machista, que marginaliza e inferioriza as mulheres, retirando-lhes o direito de ser e construir-se enquanto mulher da forma que considere adequada. Não queremos mais segurar o peso da opressão sobre nossos corpos e questionamos a naturalização dos mesmos.
Por que é errado optar por vestir-se de determinada forma e exercer certas práticas sexuais? Ter desejos e saciá-los? Até quando iremos ver determinados comportamentos com olhar moralista e inquisidor? Por que determinados comportamentos são aceitos e outros não? A que e a quem isso serve? Quem se beneficia com a impossibilidade da mulher manifestar a sua liberdade de ser e se expressar?
Construir nossos corpos e ter domínio sobre eles preocupa os interesses de uma sociedade que por séculos nos roubou esse direito. Nossas vozes hoje clamam pelo livre exercício da sexualidade, sem violência, sem medo, sem culpa; pela liberdade em escolhermos noss@s parceir@s; pela opção de querer ou não querer ter relações sexuais; pela necessidade de viver sem violência, discriminação ou imposição. Cansamos de ter nossos direitos negados, cansamos de ter nossos desejos sufocados, cansamos de carregar o peso diário da opressão que, muitas vezes, nos chega de forma sutil, mas que nos afeta e machuca como qualquer outro. O machismo é cruel e mata!
Não queremos mais ser chamadas de vadias ou putas, por exercer os nossos direitos sexuais e a nossa liberdade de expressar e ser “mulher” da forma que optarmos.
Já fomos chamadas de vadias porque usamos roupas curtas, já fomos chamadas de vadias porque transamos antes do casamento, já fomos chamadas de vadias por simplesmente dizer “não” a um homem, já fomos chamadas de vadias porque levantamos o tom de voz em uma discussão, já fomos chamadas de vadias porque andamos sozinhas à noite e fomos estupradas, já fomos chamadas de vadias porque ficamos bêbadas e sofremos estupro enquanto estávamos inconscientes, por um ou vários homens ao mesmo tempo, já fomos chamadas de vadias quando torturadas e curradas durante a Ditadura Militar. Já fomos e somos diariamente chamadas de vadias apenas porque somos MULHERES. (Trecho da Carta Manifesto da Marcha das Vadias de Brasília – Por que marchamos?)
Nós, mulheres violentadas pela opressão que vivenciamos cotidianamente em qualquer lugar, função ou papel social que ocupamos; nós, mulheres latinas que ainda recebemos 30% menos que os homens, mesmo trabalhando 30 horas semanais a mais que eles; nós, mulheres, que a cada 24 segundos sofremos uma violência física, repudiamos e nos posicionamos contra todas as opressões, violentações machistas, sexistas e patriarcais que secularmente foram e são praticadas contra a figura humana da MULHER, que são veladas, não notificadas, fundamentalmente, na região que vivemos do Sub-Médio São Francisco.
Contudo, este tipo de “brincadeira” vem nos mostrar como ainda vivemos em uma sociedade machista, que se utiliza de xingamentos para caracterizar uma mulher, mesmo quando ela se encontra numa condição de liberdade. Conscientes de que precisamos lutar permanentemente para mudar o mundo, construindo o projeto popular e feminista para a nossa sociedade, que liberte mulheres e homens da opressão do sistema capitalista patriarcal que se sustenta nos pilares sexistas, machistas e racistas, NÓS, MULHERES do campo, da cidade, da periferia, do Vale do São Francisco, SEGUIREMOS EM LUTA E EM MARCHA ATÉ QUE TODOS SEJAMOS LIVRES!
Nem Santas, Nem Putas, Nem vadias: Livres!! “O Feminismo nunca matou ninguém, já o machismo nos mata todos os dias!!!”.
Coletivo Feminista do Vale do São Francisco