Neste artigo abaixo, o líder do Governo Lóssio na Casa Plínio Amorim, vereador Dr.Pérsio Antunes, faz uma análise sob o prisma político do fenômeno da seca no Nordeste.
Ele aproveita o ensejo para tecer duras críticas à famigerada “indústria da seca”, focando sobretudo o governo federal. Confiram:
Ao longo da minha vida assisti, quando criança, a anos de fartura e outros de dificuldades. Períodos chuvosos em que tudo que se plantava era retorno certo, colhia-se milho, feijão, melancia, mandioca, mamona e até arroz era muito comum nas vazantes dos riachos que se dirigiam para o rio São Francisco. Enchentes que faziam barragens sangrar e até “morrer sapo afogado”.
Ouvia-se falar pelos mais velhos que em alguns momentos como os anos de 1930, 1956, 1970 e 1982, este por mim testemunhado, foram anos de grandes secas que provocaram perdas econômicas, perdas de animais e desagregação familiar com os retirantes viajando para São Paulo e outras regiões do Brasil. A cidade de Campo Alegre de Lourdes, assim como as demais cidades do semiárido nordestino, sofrem hoje com a estiagem que assola esta região do Nordeste brasileiro, sendo considerada a maior seca dos últimos 30 anos.
Falando da história da seca, há relatos do primeiro registro de seca no Nordeste tendo acontecido por volta de 1559, logo após o descobrimento do Brasil (Guerra, 1951). É do conhecimento da meteorologia que no calendário de secas no Nordeste, de um modo geral, ocorreram 9 (nove) secas por séculos, uma a cada 11(onze) anos. As secas dos séculos XVI e XVII não tiveram maiores impactos socioambientais, haja visto o número pequeno de habitantes e à fartura de recursos naturais que reduziram consideravelmente os efeitos das secas (Brito Guerra, 1981). No entanto, as secas de 1877 a 1879, provocaram perda de mais de 500.000 (quinhentas mil) vidas humanas (Brito Guerra, 1981), devendo-se isto à falta de preparo dos então governantes para enfrentarem as consequências da estiagem.
O Imperador Dom Pedro II veio ao Nordeste e prometeu vender “até a última joia da Coroa” para amenizar o sofrimento do povo desta região. Decorrente disto, no final do século XIX, entre 1886 e 1889, fez com que o imperador Dom Pedro II criasse a Comissão da Seca.
O açude Cedro, em Quixadá-CE – iniciado em 1888 e concluído em 1906 -, foi o primeiro passo para uma política de construções de açudes aqui no Nordeste. Em 1909 foi criado Instituto de Obras Contras as Secas (IOCS). A partir daí, foram construídos vários açudes e barragens até os dias atuais, com um incremento dos poços artesianos e cisternas residenciais para tentar reduzir o sofrimento, a miséria e a pobreza consequentes das eras de grandes estiagens.
O açude de Coremas-PB foi considerado o maior do Brasil, desde seu término em 1943, até a inauguração do açude de Orós-CE em 1960. Esta outra barragem gigante recebeu o nome do Pres. Juscelino Kubistchek de Oliveira, cuja capacidade é de 2.100.000.000 metros cúbicos. Porém, em 1983, foi inaugurado o maior de todos, o açude de Açu-RN, que recebeu o nome do Engº Armando Ribeiro Gonçalves, com capacidade de 2.400.000.000 metros cúbicos.
Culturalmente falando, nós nordestinos já somos conformados, apesar de existirem alguns visionários que vislumbravam dias melhores. Entre estes visionários, não podemos nos esquecer de grandes homens como Dr. Nilo Coelho, Dr. Osvaldo Coelho, Sr. José Coelho, que tiveram a visão grande de promover a irrigação no vale, especialmente na região de Petrolina, com os projetos Bebedouro, Senador Nilo Coelho, Maria Tereza, que têm alavancado o desenvolvimento e o crescimento econômico da nossa região, gerando milhares de empregos e qualidade de vida para as pessoas.
Nos dias atuais, vivenciamos grandes enchentes na região norte, principalmente nos estados do Pará e Amazonas, com centenas de cidades em estado de emergência, comunidades inteiras alagadas e famílias desabrigadas, não sendo diferente nos estados do sul e do sudeste. Por outro lado, assistimos na região do semiárido nordestino, e especificamente aqui na região do Vale do São Francisco, cidades como Petrolina, Juazeiro, Casa Nova, Sento Sé, Pilão Arcado, Dormentes, Lagoa Grande, Santa Maria da Boa Vista, Cabrobó, Afrânio, entre tantas outras dos estados da Bahia, Pernambuco e Piauí, sofrendo drasticamente com o fenômeno da seca.
Aqui no nosso município o descaso da Codevasf com as pessoas que mais precisam tem sido demonstrado claramente quando se observa o dinheiro público que seria para investir na distribuição de água através de adutoras de Uruás a Caititu, por exemplo , com tubulações abandonadas há dois anos, quando se iniciava o processo eleitoral para governador, deputados e presidente, evidenciando o uso eleitoreiro da máquina pública. Gostaríamos muito de saber onde estão os tão anunciados milhões, bilhões para o combate à seca? Será que o Brasil ao longo da sua história não aprendeu com Israel ou com os EUA, que transformaram o deserto do Saara e o Estado da Califórnia respectivamente em grandes exemplos para o mundo?
O projeto Pontal, iniciado no governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, encontra-se parado há mais de uma década. E o Canal do Sertão, que junto com o Pontal, irá gerar 600 mil empregos, ainda não saiu do papel, mostrando a ineficiência principalmente da Codevasf, que não tem cumprido o seu papel no programa de irrigação do Vale do São Francisco.
Por outro lado, existem aqueles que se aproveitam da problemática da estiagem para praticar os discursos políticos, que muitas vezes tiveram a oportunidade de mudar a história e nada fizeram, até porque se beneficiam do voto dos chamados flagelados da seca, usando o seu sofrimento para atingir os objetivos.
A seca é um fenômeno natural periódico que pode ser contornada com o monitoramento do regime de chuvas, implantação de técnicas próprias para regiões com escassez hídrica ou projetos de irrigação e açudes. A Transposição do Rio São Francisco foi uma das grandes bandeiras de campanha do governo atual e é uma questão mais que polêmica. Projeto com orçamento de R$ 4,5 bilhões, hoje com aditivos já chega a 8 bilhões oriundos do bolso do povo brasileiro e não sabemos até onde isto vai parar. Há quem defenda que a obra é mais um fruto da indústria da seca e que, além de não resolver o problema, ainda pode piorar, uma vez que altera todo regime hídrico da região e coloca em risco um dos patrimônios naturais mais importantes do Brasil, o próprio rio.
Depois de tudo que foi dito, nos deparamos com a “grande solução dos problemas da seca”, a contratação dos famosos carros-pipa, que engordam os bolsos de alguns apadrinhados políticos e preenchem o ego de alguns políticos que aguardam as próximas eleições para cobrar a moeda de troca do líquido mais precioso (água) que dá a vida ao cidadão, a fauna e a flora, para continuar se perpetuando no poder.
Petrolina, 19 de maio de 2012.
Dr. Pérsio Antunes/Vereador – PMDB